As práticas construtivas com terra em comunidades tradicionais representam estratégias intrínsecas de adaptação bioclimática e autonomia territorial, mas enfrentam desafios frente à imposição de padrões mercadológicos da construção civil e à colonialidade do saber. Assim, para compreender a relação das comunidades quilombolas Sítio Velho (Assunção do Piauí) e Macacos (São Miguel do Tapuio) com a construção com terra enquanto conhecimento tradicional, esse estudo buscou caracterizar as técnicas construtivas praticadas, descrever as dinâmicas sociais e coletivas de detenção, produção e transmissão geracional do desse conhecimento e investigar as suas permanências e transformações ao longo do tempo. Para isso, adotou-se abordagem qualitativa de caráter exploratório-descritivo estruturada como estudo de caso múltiplo, fundamentada em uma perspectiva decolonial, dialogando com a História Ambiental, a Antropologia e a Arquitetura. O trabalho de campo uniu uma inspiração etnográfica à técnica da história oral temática, utilizando observação participante, registros de campo e entrevistas semiestruturadas com os moradores. Os resultados preliminares, analisados a partir da história oral, revelam trajetórias distintas entre as comunidades: em Sítio Velho, ocorreu o abandono do adobe cru em prol do bloco cerâmico industrial, transição motivada pela melhoria nas condições de vida da população associada à crescente monetização das relações sociais, além da indisponibilidade do barro através da transformação da paisagem e desarticulação das práticas de ajuda mútua (mutirão). Em contrapartida, Macacos evidencia a permanência do conhecimento construtivo por meio do uso do adobe queimado mesmo com a recente inserção de algumas casas em bloco cerâmico e da previsão de políticas públicas habitacionais que desconsideram suas técnicas tradicionais, o que reflete a profunda relação, ainda presente, com a terra e a manutenção da coesão comunitária. Contudo, apesar dessa resistência e da importância que os moradores atribuem à valorização de suas técnicas, existe um receio entre os construtores mais velhos quanto à não continuidade desse conhecimento pelas novas gerações. Os resultados preliminares revelam que o conhecimento construtivo com terra transcende a sua funcionalidade material, configurando-se como expressão complexa de organização coletiva e manutenção dos afetos, de modo que suas transformações e o seu gradativo abandono refletem diretamente os impactos de novas dinâmicas econômicas e individualistas sobre as relações de reciprocidade do tecido quilombola.