Historicamente a condição da mulher na sociedade é percebida pela ótica de opressão e de subalternidade, devido às concepções patriarcais a partir das quais os homens acreditam serem superiores às mulheres e que, por conta desse suposto poder, podem exercer várias atrocidades contra esse corpo feminino. Tanto as concepções biológicas como as sócio-históricas e culturais contribuíram, ao longo dos tempos, para que esse pensamento patriarcal se fortalecesse e, ainda nos atuais tempos, seja exercido de forma legitimada por uma sociedade que se alicerça por essa ótica violenta. Para tanto, esta tese tem por objetivo compreender como as violências contra a mulher se configuram em narrativas literárias escritas por mulheres, buscando vislumbrar, para além das dores e traumas, os silêncios que significam diante de atos horrendos perpetrados por homens que têm a lógica do patriarcado como ordenação nas relações afetivas ou não. Voltando o olhar para o contexto sócio- histórico da violência contra a mulher no Brasil e no México, tem-se nos objetos literários – Sinfonia em branco (2013), de Adriana Lisboa, e Reze pelas Mulheres Roubadas (2015), de Jennifer Clement – os referenciais literários para esta compreensão. Quanto ao processo metodológico, utilizou-se o método comparativo de interpretação do fenômeno. Diante disso, estabelece-se este olhar comparatista nesta investigação, vislumbrando a perspectiva da articulação entre os objetos literários e outros campos do conhecimento. É importante salientar que a natureza da pesquisa é de cunho descritivo. Para o apoio teórico, utilizaram-se os pensamentos de Mikhail Bakhtin (2019); Wolfgang Iser (2013); Mary Del Priore (2018); Gerda Lerner (2022); Heleieth Saffioti (2015); Sueli Carneiro (2019); bell hooks (2023); Rita Segato (2016); Le Breton (1999); Eni Orlandi (2007); Michelle Perrot (2003); Bessel van der Kolk (2020); Aleida Assmann (2011), entre outras(os) pensadoras(es) que auxiliaram teórico e criticamente nesta trajetória de investigação. Pelo exposto, considerou-se que as obras literárias investigadas se apresentaram como um espaço ou um laboratório no qual se conhecem as experiências das personagens, suas sensações e seus traumas. Neste contexto, identificaram-se violências e silêncios que se apresentam de diferentes maneiras nas duas obras, mas que confirmam o eixo central da presença da lógica do patriarcado nas ações cruéis exercidas pelos personagens masculinos em relação aos corpos femininos, independentemente da classe social, da raça, da idade, do grau de escolaridade. Todas as personagens femininas, de alguma maneira, sofrem os ditames do patriarcado nas relações entre homens e mulheres, sejam elas com algum grau de afetividade ou não.