Desde as primeiras décadas do século XXI, a literatura latino-americana testemunha uma notável efervescência de produções no campo da narrativa do Horror Gótico de autoria feminina. Essa guinada temática é orientada por um reposicionamento crítico das escritoras diante das violências históricas e estruturais que atravessam o continente. Nesse cenário, destaca-se centralmente a obra da escritora e jornalista argentina Mariana Enriquez, um dos principais nomes da literatura de língua espanhola da atualidade. Nesta dissertação, preocupamo-nos em observar como o Gótico de autoria feminina utiliza a subversão e o questionamento dessa tradição para expor preocupações pertinentes à experiência das mulheres. O entendimento do Gótico Feminino como uma rede de influências que se desenvolve ao longo do tempo, permitiu-nos avaliar como a escrita contemporânea dessa vertente retoma algumas das ansiedades do passado e elabora novas formas de representação, as quais são adaptadas às recentes dinâmicas de opressão. Para tanto, tomamos como objeto de estudo a ficção de Mariana Enriquez, com foco especial nas coletâneas de contos Os perigos de fumar na cama (2009) e As coisas que perdemos no fogo (2016). Procuramos compreender de que modo as características formais e temáticas da tradição do Gótico Feminino são transformadas e mobilizadas no século XXI para dar conta de novas modalidades de violência, tais como a máquina feminicida e o capitalismo gore. Com essa finalidade, utilizamos como base teórica os estudos sobre o Gótico de autoria feminina empreendidos por Ana Paula Araujo dos Santos (2022), Eugenia C. Delamonte (1990), Ellen Moers (1976), Sandra Gasparini (2022) e Berenice Romano Hurtado (2023); assim como os estudos sobre abjeção, horror corporal, feminino monstruoso, capitalismo gore e patriarcado, concebidos por Julia Kristeva (2024), Xavier Aldana Reyes (2024), Barbara Creed (2007;2022), Sayak Valencia (2024) e Rita Segato (2018). Nesse sentido, partimos da hipótese de que o Gótico Feminino continua a se especializar na denúncia dos horrores vivenciados pelas mulheres, visto que estes se reconfiguram na medida em que a autonomia feminina é conquistada. Além disso, desafia e subverte os mitos patriarcais secularmente construídos sobre a identidade da mulher. Por meio de uma análise pautada nos princípios da Literatura Comparada e sob um aporte metodológico amparado em uma crítica feminista- marxista, este estudo procurou demonstrar que o caráter denunciativo do Gótico Feminino está em constante evolução e continua a ser um forte aliado crítico aos interesses femininos, viabilizando, desse modo, uma resistência às estruturas sistemáticas de opressão.