Esta tese investiga a configuração do sertão-cidade como espacialidade híbrida na narratividade cinematográfica neorregionalista brasileira, compreendendo-o como um elemento estético de representação do sertão nordestino contemporâneo, em que fronteiras tradicionalmente estabelecidas entre os imaginários de sertão e de cidade se tornam porosas, móveis e interpenetráveis. Parte-se da compreensão de que o espaço cinematográfico não constitui apenas um cenário para a ação narrativa, mas participa ativamente da construção de experiências, memórias, conflitos e identidades, sendo continuamente transformado pelas relações entre sujeitos, símbolos e práticas sociais. Nesse âmbito, o sertão-cidade é concebido como uma espacialidade legítima, produzida pela aproximação, pela tensão e pela incorporação de elementos materiais, simbólicos e culturais tradicionalmente associados aos dois espaços dicotômicos. A investigação procura compreender como essa espacialidade atua na renovação do imaginário regional e das formas de representação do sujeito sertanejo contemporâneo. Para isso, articula estudos sobre narratividade, espaço, imaginário, memória, identidade e cinema a uma perspectiva de análise fílmica, observando como a transformação do espaço acompanha e provoca transformações nos sujeitos que o habitam. Nesse movimento, personagens tradicionalmente vinculadas ao imaginário sertanejo são deslocadas, atualizadas e reelaboradas, preservando marcas de reconhecimento de sua tradição ao mesmo tempo em que incorporam novas experiências, almejos e formas de pertencimento. O percurso analítico, então, concentra-se em O céu de Suely (2006); Boi neon (2015); Bacurau (2019) e Deserto particular (2021), obras fílmicas nas quais o deslocamento espacial e identitário permite ler diferentes modos de existência no sertão-cidade. Infere-se, pois, a ascensão das personagens: vaqueiro urbanizado; cangaceiro dissidente; migrante hibridizado e mulher sertaneja urbanizada, as quais despontam como sujeitos ancorados na tradição sertaneja e, simultaneamente, atravessados pela cultura citadina. Nesse sentido, a tese sustenta que o neorregionalismo cinematográfico brasileiro não abandona imaginário do sertão, mas o movimenta, transformando suas paisagens, tensionando suas memórias e ampliando suas esferas de pertencimento. O sertão-cidade surge, portanto, como espaço de permanência e reinvenção, em que o sertão nordestino contemporâneo pode ser visto como espaço vivo, contraditório e em permanente transformação.