Ao final do ano de 2019, um vírus, inicialmente desconhecido, foi identificado como a principal causa de pneumonias na cidade de Wuhan (China). Apesar dos esforços iniciais para sua contenção, disseminou-se rapidamente pelo mundo e, em 11 de março de 2020, adquiriu o status de pandemia. Diversas medidas de controle foram utilizadas na tentativa de mitigar os efeitos desta. Assim sendo, esse trabalho objetivou analisar o impacto da pandemia de COVID-19 no Brasil por meio de métricas como o Índice de restrições, mortalidade, morbidade, imunização, mutações do SARS-CoV-2, estratificadas por VOCs e o ideologismo político-partidário, dividindo a tese derivada em três capítulos. O primeiro abordou o efeito da vacinação estratificado por variantes de preocupação (variants of concern, VOC) e suas sublinhagens, desde seu início até o fim do estado de emergência. Utilizou-se o coeficiente de correlação tau de Kendall (τ) para avaliação da relação destas. Observou-se que a vacina foi efetiva na redução, principalmente, de óbitos, em comparação ao total de vacinações (τ=-0,702, p<0,001, IC95% [-0,723; -0,679]) e indivíduos imunizados (τ=-0,717, p<0,001, IC95% [-0,737; -0,695]). Ainda, existiu correlação na redução de novos casos, todavia, consideravelmente mais fraca do que a ligada à redução de óbitos. Quando estratificado por VOCs e suas sublinhagens, é notável que, para a Ômicron, não há correlação com o esforço vacinal, embora esse dado não seja atestado de inefetividade, uma vez que outras variáveis, como a diminuição da implementação de medidas não- farmacológicas, podem estar influenciando essa relação. Esse resultado pode ser confirmado pela redução do índicede restrições frente à quantidade de casos estimados dessa VOC e suas sublinhagens (τ=-0,199, p<0,001, IC95% [- 0,249; -0,141]). Em vista da incapacidade da vacina em conter os casos da VOC Ômicron, o segundo capítulo continuou esse estudo, explorando a possibilidade de que o extremismo ideológico possa ter influenciado este evento. Utilizou-se o coeficiente de correlação na exploração desta hipótese. Para os acumulados finais (2020-2022), nos quais se constatou uma associação entre a concordância eleitoral ao candidato de extrema-direita com o aumento na incidência de novos casos da COVID-19 (τ=0,550, p<0,001, IC95% [0,391; 0,700]), da taxa de mortalidade (τ=0,487, p<0,001, IC95% [0,236; 0,693]) e na redução das vacinações por habitante ao se controlar o efeito do Índice de Desenvolvimento Humano para essa última, (τ=-0,356, p=0,11, IC95% [-0,555; -0,100]). O terceiro artigo sintetizou parcialmente o comportamento das VOCs Gama, Delta e Ômicron do SARS-CoV-2 no Brasil. Este observou que a VOC Gama surgiu no Brasil em um período de queda das medidas de controle não farmacológicas, sem que a campanha de vacinação tivesse iniciado em território nacional. Ao se observar o comportamento da VOC Gama e o caso da cidade de Manaus, questiona-se se os sistemas de vigilância embasaram as políticas de saúde pública, pois, apesar do aumento da frequência de sequenciamento da S:E484K e o aviso de instituições como a FIOCRUZ, o índice de restrições não reagiu frente a este achado. No caso da VOC Delta, a vacinação conseguiu ser exitosa para seu controle, entretanto, com o acúmulo de mutações na VOC Ômicron, bem como a contínua queda do índice de restrições, o Brasil passou a apresentar o maior número de casos de COVID-19 no período estudado. Ferramentas modernas, como o sequenciamento genético, permitiram o rastreio de diversas mutações e, por conseguinte, melhor caracterização da evolução das VOCs do SARS-CoV-2. Ao olhar retrospectivamente aquele período, há de se questionar se essa ferramenta foi utilizada em seu pleno potencial para o direcionamento de políticas públicas. Desse modo, os dados até agora obtidos revelaram a necessidade de fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações, pelo bem da saúde pública, devendo o interesse coletivo ultrapassar o de cunho político-partidário.