A resistência antimicrobiana (RAM) representa um desafio e uma preocupação para a saúde pública. Alinhado aos objetivos da Organização Mundial de Saúde, o desenvolvimento de alternativas terapêuticas se faz urgente e necessário, e entre essas possibilidades, nanopartículas de prata (AgNPs) biossintetizadas com plantas medicinais, como a espécie Terminalia fagifolia, podem ser opções eficazes no combate à RAM. O objetivo deste estudo foi otimizar a síntese das AgNPs, a partir da variação da concentração dos derivados vegetais (EEt e FAq) e avaliar o efeito antimicrobiano e antibiofilme destas nanopartículas contra microrganismos de importância para saúde pública, bem como sua biocompatibilidade e efeito antioxidante. Três sistemas de nanopartículas de prata (S1-5 mg/mL, S2-500 μg/mL e S3-50 μg/mL) foram obtidos por síntese verde, para cada derivado vegetal, e monitorados quanto à sua formação e estabilidade por espectroscopia na região do UV-visível, tamanho hidrodinâmico, índice de polidispersão (IPD), potencial zeta e microscopia eletrônica de transmissão (MET). O potencial antimicrobiano das nanopartículas foi avaliado in vitro para a determinação da Concentração Inibitória, Bactericida e Fungicida Mínimas (CIM/CBM/CFM) contra isolados clínicos, evidenciando o efeito das AgNPs sobre os microrganismos por meio da análise da curva de morte, envolvimento do estresse oxidativo e alterações morfológicas por microscopia de força atômica. A inibição da formação de biofilmes foi analisada com concentrações correspondentes a 1/2, 1/4 e 1/8 da CIM. A atividade antioxidante foi realizada pelo ensaio de captura do radical ABTS e a biocompatibilidade através do ensaio de hemólise com eritrócitos humanos, citotoxicidade em células não tumorais, pelo ensaio do MTT; e pela ecotoxicidade aguda em náuplios de Artemia salina. A formação das nanopartículas foi confirmada pela presença da banda plasmônica na região de 320-410 nm. O sistema S1-5 mg/mL, mostrou-se o mais estável, com morfologias esféricas, tamanhos de 246±15 nm e 42±15 nm, IPD 0,50±0,04 e 0,53±0,39 e carga de -54,3± 2,5 e -31,5±8,5 para AgNP-EEt e AgNP-FAq, respectivamente. Todos os sistemas apresentaram atividade antibacteriana, destacando-se o S1-5 mg/mL que apresentou as menores CIMs com valores entre 0,84-6,75 μgAg/mL, tendo a CBM variado entre 1,68->27 μgAg/mL, sendo então escolhido para as demais investigações. Em relação à atividade antifúngica, todos os isolados testados se mostraram sensíveis aos sistemas de AgNPs S1-5 mg/mL, com maior potencial contra as espécies C. parapsilosis, C. krusei (Pichia kudriavzevii) e C. auris (Candidozyma auris), com CIM de 0,025, 0,025 e <0,05 μgAg/mL para ambas as soluções de AgNPs, respectivamente. A curva de morte revelou que a solução de AgNP-EEt inibiu o crescimento bacteriano já nas primeiras oito horas de tratamento e, adicionalmente, há um provável envolvimento do estresse oxidativo no efeito contra os isolados de estafilococos coagulase negativa (ECN)18, Acinetobacter baumannii e C. parapsilosis. Alterações expressivas na morfologia dos isolados bacterianos e fúngicos foram observadas, após o tratamento com AgNP-EEt e AgNP-FAq, respectivamente, sendo estas marcadas pelas mudanças no tamanho e na rugosidade das células microbianas, quando comparadas ao grupo controle. A solução de AgNP-EEt inibiu 60% da formação do biofilme das bactérias Gram positivas testadas. As AgNPs apresentaram potencial antioxidante, com inibição de até 90% do radical ABTS. Na investigação da biocompatibilidade, as AgNPs apresentaram 9% de hemólise apenas na máxima concentração testada (27 μgAg/mL) e em relação à citotoxicidade, as AgNPs apresentaram-se citotóxicas nas maiores concentrações testadas contra a linhagem de queratinócitos humanos, com IC50 igual a 3,59 μgAg/mL para AgNP-EEt e 2,37 μgAg/mL para AgNP-FAq. Na ecotoxicidade em náuplios de A. salina, as AgNPs reduziram a viabilidade dos organismos nas primeiras 24 horas de exposição. Os dados apresentados demonstram que as AgNPs biossintetizadas a partir de derivados de Terminalia fagifolia apresentam potencial antimicrobiano frente a patógenos de relevância clínica, aliado à atividade antioxidante e a um perfil de biocompatibilidade aceitável. Os achados indicam que a síntese verde constitui uma estratégia promissora para o desenvolvimento de nanossistemas bioativos com aplicação no enfrentamento da RAM, embora estudos adicionais de segurança e validação in vivo sejam necessários para avançar para contextos clínicos.