Essa pesquisa parte das implicações da pesquisadora enquanto mulher transtravesti que vive a UFPI. A investigação insere-se no Observatório das Infâncias e Juventudes na Educação/OBIJUVE, que se adiciona às investigações do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação, Gênero e Cidadania/NEPEGECI, na linha de Educação, Diversidades/Diferença e Inclusão do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Piauí – UFPI. Tem como problema de pesquisa: O que pode o corpo transvestigênere com o acolhimento, enquanto resposta às violências transfóbicas, para permanecer no CCE da UFPI? Como objetivo geral buscou: investigar confetos (conceitos + afetos) elaborados por jovens transvestigêneres do Centro de Ciências da Educação/CCE da Universidade Federal do Piauí/UFPI sobre o que pode o corpo transvestigênere frente à transfobia com o acolhimento para permanecer no CCE/UFPI e como objetivos específicos: conhecer as juventudes transvestigêneres que integram o CCE da UFPI; identificar as violências transfóbicas que impedem a permanência das juventudes transvestigêneres no CCE; compreender os modos de acolhimento que auxiliam na permanência das juventudes transvestigêneres no CCE e propor formas de acolhimentos permanentes para o combate de possíveis violências transfóbicas que dificultam a permanência das juventudes transvestigêneres no CCE. O referencial teórico se ancora em pesquisas de pessoas trans, tais como em Juno Nedel (2020), para pensar o corpo trans como arquivo vivo de memórias. Em Céu Cavalcanti e colaboradores (2018), Jaqueline de Jesus (2014c; 2019); Tiffany Odara (2020), Letícia Nascimento (2021, 2023), Maria Clara Passos (2023) e Bruna Benevides (2025) para compreendermos os aspectos históricos que perscrutam as origens das violências transfóbicas, mas também de como fomos nos articulando, nacionalmente, em resposta a essas violências. Nas pesquisas de Jaqueline de Jesus (2014a; 2014b), Jota Mombaça (2017), Amara Rodovalho (2017) e Letícia Nascimento (2021) para pensarmos sobre o Transfeminismo. Além de Viviane Vergueiro (2016), Megg Oliveira (2017), Helena Vieira (2018) e Letícia Nascimento (2023) para estudarmos as juventudes transvestigêneres e a transfobia insitucionalizada na escola e, sobretudo, na universidade. Além dessas, outras pesquisas, incluindo de pessoas cisgêneras. Metodologicamente, a pesquisa é direcionada pela Sociopoética, que trata da produção coletiva, crítica e inventiva do conhecimento, tendo como diferencial a produção de confetos, conceitos permeados de afetos (Adad, 2014a; Petit, 2014; Gauthier, 2024). O grupo-pesquisador é formado pela facilitadora e cinco (05) copesquisadoras bichas jovens (Paulo, Sat, Taffyta, Jazmin e Arapuca), sendo uma com 20 anos, duas com 21 anos, uma com 27 anos e uma não informou sua idade, estudantes dos cursos de Pedagogia, Moda e Artes Visuais do CCE/UFPI, em Teresina-PI. O diário de itinerância, o qual chamo de diário dos latejos, foi utilizado para registro das vivências. A técnica, a pele transespiralar do acolher, levou à criação de dados e relatos orais do tema-gerador acolhimento no CCE. Após o estudo dos dados, identificamos como resultados os seguintes confetos e problemáticas: Na universidade existem pessoas-chequeiras, aquelas que praticam a prática-educativa-cheque, isto é, uma educação atravessada por violências transfóbicas que despotencializa as jovens transvestigêneres. As pessoas-chequeiras são amparadas pelo pacto-cisheterobrancocristão o qual é um contrato não verbalizado que envolve práticas educativas transfóbicas. Isso gera o acolhimento-Sozinha-Sozinha!? que é um não acolhimento na universidade e os motivos pelos quais não se é socialmente acolhida pelo processo com a rejeição-vermelha-roxa, que é aquela rejeição em que se está sozinha, que se diz que não se é bem-vinda e tem cores fortes das pessoas-chequeiras. As rejeições, por sua vez, produzem existência-coisa-peso-de-estar-sozinha na qual as jovens sentem o peso de estarem sozinhas por não ter ninguém e de ser sozinhas por ter muitas pessoas que não as compreendem. Para re-existirem, usam da tática-vida-que-segue, que é aquela tática criada pelo tecido-corpo-bicha, que tem de ser radical; a tática-rolê-dos-processos-concluídos em que as jovens-transvestigêneres acreditam que é bom por um fim nas coisas negativas e a tática-manter-a-calma-sozinha, a de lidar sozinha com as violências, sobretudo, manter a calma quando o nome morto - aquele nome que chamavam a pessoa transvestigênere antes de sua transição - é falado. Apesar disso, existem na universidade pessoas-acolhedoras e pessoas-aleatórias-com-cabelos-coloridos, as quais são acolhedoras e com quem as jovens podem contar, o que gera o acolhimento-bicha-com-bicha em que as jovens-transvestigêneres vão para a universidade, passam pelas violências, mas chegam na sala de aula e encontram aquela bicha que gosta demais. Esse acolhimento produz ExistênciaTrans-na-dor-e-na-delícia-de-viver-colecionando-gente, porque as jovens carregam na dor todas as coisas boas e gostam de viver em um corpo que não é nem de homem e nem de mulher e são felizes por conhecer pessoas que marcam a vida e acolhem. Dentro dessa existência, usam da tática-costura-amizade, que é aquela potência de costurar as amizades. O estudo direciona para a constituição de um corpo coletivo transvestigênere no CCE que se potencializa, re-existe e cria epistemologias espiralares de acolhimento, pois apesar dos rasgos feitos no tecido-corpo-bicha pelo Pacto-cisheterobrancocristão, as jovens refazem as costuras de si.