A cajazeira (Spondias mombin L.) espécie em domesticação com diversos potenciais de uso, apresenta uma cadeia de produção em desenvolvimento no Meio-Norte piauiense. Objetivou-se investigar a cadeia produtiva de S. mombin, com foco nos arranjos socioecológicos locais no município de Teresina, Piauí, seus impactos ambientais potenciais, conhecimentos ecológicos locais/tradicionais (CEL/CET) associados e estratégias sustentáveis para o aproveitamento de resíduos agroindustriais. Realizou-se levantamento de dados da produção científica mundial sobre os potenciais de uso de S. mombin, e da comercialização de seus produtos em pontos comerciais do município de Teresina; bem como coleta de dados etnoecológicos por meio de turnê-guiada, observação direta, etnografia visual e entrevistas com agentes da cadeia produtiva e trabalhadores rurais que explotam a frutífera. Também foi produzida farinha a partir dos resíduos da agroindústria da polpa de cajá. Os resultados bibliométricos apresentaram 121 artigos e 18 patentes relacionadas ao potencial farmacológico de S. mombin, com destaque para a atividade antioxidante de extratos da folha. As farinhas elaboradas com resíduos da agroindústria apresentaram potencial funcional e nutracêutico diante do alto percentual de carboidratos e da carga fenólica e antioxidante verificada. A concentração da comercialização de S. mombin no município de Teresina, aponta para uma centralidade desta cadeia produtiva na região, com prevalência de polpa de fruta frente ao fruto in natura pela sua perecibilidade. Os agentes da cadeia entrevistados apresentaram conhecimentos ecológicos acerca da frutífera, como fenologia, fisiologia, distribuição geográfica, diferença entre frutos nativos e implantados, além de etnotaxonomia do cajá e outras Spondias. Os trabalhadores do pomar comercial entrevistados apresentam conhecimentos ecológicos locais acerca da domesticação da espécie, mencionando memes locais relacionados a características dos clones de S. mombin que ocorrem na área. O estudo etnográfico possibilitou verificar a explotação do cajá durante a colheita, além de questões trabalhistas dos coletores. De modo geral, a espécie apresenta potencial para contribuir com a segurança alimentar, geração de renda, conservação da biodiversidade, valorização do patrimônio biocultural e desenvolvimento de produtos inovadores de interesse alimentício, farmacêutico e nutracêutico. Ademais, estratégias futuras voltadas à conservação, domesticação e fortalecimento da cadeia produtiva do cajá devem considerar abordagens interdisciplinares, capazes de integrar aspectos ecológicos, agronômicos, econômicos e socioculturais. O reconhecimento dos conhecimentos locais, associado ao avanço das pesquisas sobre variabilidade genética, fitoquímica e aproveitamento integral dos frutos, constitui caminho promissor para consolidar S. mombin como um recurso estratégico da sociobiodiversidade brasileira e como importante ativo para o desenvolvimento sustentável.