Introdução: A Cromoblastomicose (CBM) é uma micose de crônica causada por fungos melanizados, cuja abordagem terapêutica permanece desafiadora devido ao tempo prolongado de evolução da doença, o que impacta na eficácia dos antifúngicos existentes. É classificada como uma doença tropical negligenciada, sendo assim, ainda são escassas as pesquisas voltadas à identificação de novas opções terapêuticas. Nesse cenário, e aliado ao crescente interesse por estratégias de reposicionamento de fármacos, este trabalho investigou, por meio de abordagens in silico, a atuação da Pilocarpina (PILO), um alcaloide colinérgico de uso consagrado em oftalmologia, cuja molécula é muito semelhante a dos fármacos antifúngicos imidazólicos, como candidato alternativo no tratamento da CBM. Metodologia: O estudo in silico envolve a realização de docking molecular com enzimas-chave envolvidas na patogenicidade e sobrevivência dos fungos causadores da CBM, incluindo enzimas como Lanosterol 14α-desmetilase, Hsp90, Lactonase, Wdyg1p, 1,3-β-glucano e Topoisomerase II. As estruturas tridimensionais dos alvos fúngicos foram obtidas do PDB e AlphaFold e a estrutura da PILO do PubChem. O mapeamento dos sítios ativos foi conduzido por docking cego (Achilles), seguido de refino no DockThor. Além disso, foi realizada a predição das propriedades farmacocinéticas e toxicológicas (ADMET) e bioatividade antifúngica, utilizando as plataformas ADMETlab 3.0, SwissADME e PASS Online. Resultados e Discussões: Os resultados indicaram que o acoplamento molecular apresentou o melhor score de ligação com a lanosterol 14α-desmetilase, sugerindo interação relevante com a pilocarpina. Essa enzima é crucial na biossíntese do ergosterol, alvo dos antifúngicos azólicos. Os dados preditivos demonstraram que a PILO apresenta alta absorção intestinal, permeabilidade no sistema nervoso central e ausência de alertas relevantes de toxicidade, superando, em alguns aspectos, o perfil toxicológico de antifúngicos como o itraconazol. Apesar de apresentar baixa bioatividade antifúngica predita, o composto mostrou capacidade interação com importantes alvos moleculares por meio do docking molecular. Isso indica que ele pode ser útil como base para desenvolver novos antifúngicos de forma racional ou como combinação em protocolos terapêuticos. Conclusão: O presente estudo reforça a aplicabilidade de ferramentas computacionais na triagem de compostos reposicionados e aponta a PILO como um possível
candidato para futuras validações experimentais no contexto de infecções fúngicas negligenciadas, com a finalidade de contribuir com o arsenal de alternativas terapêuticas voltadas a CBM.