O escorpionismo emerge como um grave e crescente problema de saúde pública em regiões tropicais e subtropicais, incluindo o Brasil, onde as condições climáticas favorecem a proliferação de escorpiões. A ordem Scorpiones demonstra notável plasticidade ecológica e adaptativa, permitindo o estabelecimento de populações tanto em ambientes naturais, quanto em áreas antropizadas e degradadas. A expansão urbana desordenada e problemas decorrentes dela, como o saneamento básico precário e a proximidade de áreas habitadas com ambientes silvestres, têm sido associados à presença de escorpiões em áreas ocupadas. Em ambientes rurais, a fragmentação e supressão da vegetação, ligadas as atividades agrícolas também parecem desempenhar papel determinante na problemática. Compreender este fenômeno complexo no Brasil, e mais especificamente no Piauí, exige uma perspectiva interdisciplinar, que vá além dos aspectos epidemiológicos e de saúde, e considere fatores ambientais e sociais. A dissertação, estruturada como coletânea de artigos, busca explorar o perfil dos estudos experimentais sobre escorpiões no Brasil; a influência de fatores socioambientais e socioeconômicos na ocorrência e gravidade do escorpionismo no Brasil, com ênfase no Piauí; e as percepções, crenças e práticas populares relacionadas à coexistência com escorpiões em comunidades rurais piauienses. Inicialmente constatou-se, por meio de uma revisão de escopo executada com base no protocolo PRISMA-ScR, um aumento expressivo de estudos sobre escorpiões nos últimos anos, com Pernambuco liderando a produção. Os métodos de coleta mais usuais foram busca ativa com luz ultravioleta, e a identificação predominante foi morfológica. As principais vertentes de pesquisa foram Ecologia e Etologia. A revisão evidencia um padrão ainda tradicional nos estudos, com uso reduzido de metodologias inovadoras. No segundo artigo, investigamos a associação entre a incidência de acidentes/internações envolvendo escorpiões e indicadores de sustentabilidade em municípios brasileiros, analisando dados secundários com Análise de Componente Principais e regressão binomial negativa. Identificamos que a vulnerabilidade socioeconômica influencia negativamente as notificações, sugerindo um cenário de subnotificação em áreas precárias, ao passo que se associa positivamente às internações, indicando maior gravidade nos desfechos clínicos registrados. No terceiro estudo, ao reduzirmos a escala para o município de União-PI em um estudo ecológico, testando a influência de variáveis preditoras sobre o escorpionismo com modelo linear generalizado de distribuição gama, observamos uma dissociação espacial relevante: enquanto os acidentes se concentram na malha urbana, a abundância de escorpiões foi significativamente maior na zona rural, marcada pela dominância da espécie generalista Bothriurus rochai Mello-Leitão, 1932. Esses dados indicam que o risco é modulado prioritariamente pelo ambiente construído e não apenas pela densidade populacional dos animais. Por fim, o quarto artigo registrou com uso de técnicas etnobiológicas qualitativas e quantitativas o Conhecimento Ecológico Local em comunidades rurais, revelando um sistema classificatório próprio onde escorpiões são denominados “lacraias” e classificados por cor e periculosidade. A predominância do medo e o uso frequente de tratamentos caseiros corroboram a hipótese de subnotificação levantada na análise nacional. Concluímos que a dinâmica do escorpionismo é multidimensional, demandando estratégias de Saúde Única que integrem melhorias sanitárias, planejamento urbano e educação ambiental contextualizada para mitigar efetivamente o problema.