Esta pesquisa tem como objetivo analisar os deslocamentos sociais e simbólicos das vísceras bovinas na cidade de Teresina, Piauí, compreendendo como partes do animal historicamente associadas ao estigma, ao trabalho manual e ao descarte tornam-se comida desejada, mercadoria urbana e símbolo de pertencimento regional. A metodologia baseou-se na etnografia, utilizando observação direta, diário de campo e entrevistas semiestruturadas em três espaços principais: Mercado do Mafuá, Mercado da Piçarra e o restaurante especializado Casa da Panelada. O estudo organiza-se em eixos que acompanham o percurso das vísceras, desde a memória do abate e o trabalho braçal de limpeza, passando pela comercialização em mercados e preparo em bancas populares, até chegar à requalificação gastronômica em um restaurante. Os resultados demonstram que a comestibilidade das vísceras não é natural, mas produzida por sucessivas operações técnicas e morais de limpeza, padronização e construção de confiança. A pesquisa conclui que o valor de pratos populares como a panelada não reside apenas na tradição, mas na rede de relações que os sustentam. O estigma associado às vísceras não desaparece por completo, mas é reorganizado e administrado, permitindo que a comida transite da vergonha à exaltação do orgulho nordestino mediante adaptações em sua apresentação e controle de higiene.