O Transtorno por Uso de Opioides (TUO) constitui um grave problema de saúde pública global, associado a altas taxas de overdose e limitações terapêuticas. Nesse contexto, a Mimosa tenuiflora, planta da biodiversidade brasileira rica em N,N-dimetiltriptamina (DMT) e outros alcaloides psicodélicos serotoninérgicos, surge como uma fonte promissora para abordagens antiadictivas. Este estudo investigou os efeitos da Fração Alcaloídica II (FA II; SisGen AAB530D) sobre os sintomas de abstinência precipitada por naloxona em camundongos C57BL/6J adictos à morfina e à oxicodona, bem como sua ação sobre a ansiedade associada à abstinência de morfina e sua influência na atividade analgésica da morfina. Camundongos machos C57BL/6 foram submetidos à adicção por morfina ou oxicodona por administração subcutânea de opioides durante 8 dias consecutivos. No dia 9, a abstinência foi precipitada por naloxona, sendo a FA II (3, 6 ou 9 mg/kg, s.c.) administrada previamente. Os sintomas de abstinência foram avaliados e animais adictos à morfina foram submetidos aos testes de campo aberto (TCA) e caixa claro-escuro (TCCE) para análise da ansiedade associada à abstinência. A influência da FA II sobre a atividade analgésica da morfina foi avaliada por modelo experimental de dor abdominal. Todos os procedimentos foram aprovados pelo CEUA/UFPI (nº 720/2022). A FA II modulou os sintomas de abstinência à morfina, sendo que as doses de 3 e 6 mg/kg reduziram significativamente a frequência de saltos em 79,86% e 55,40%, respectivamente, em comparação ao grupo controle. Para os tremores de patas, apenas a dose de 9 mg/kg promoveu redução significativa desse sintoma, com diminuição de 91,04% em relação ao controle. Em animais adictos à oxicodona, todas as doses de FA II reduziram significativamente a frequência de saltos, com reduções de 83,71%, 79,48% e 76,97%, respectivamente, em comparação ao controle. Perfil semelhante foi observado para os tremores de patas, com reduções de 73,15%, 79,84% e 54,35%, respectivamente. Nos animais adictos à morfina submetidos ao TCA, as doses de 3 e 6 mg/kg aumentaram significativamente o número de cruzamentos entre os quadrantes em 76,49% e 77,04%, respectivamente. As mesmas doses elevaram o tempo de permanência na área central em 178,54% e 196,72%, respectivamente, efeito também observado no comportamento de rearing, com aumentos de 163,25% e 194,50%, todos em relação ao grupo controle. No TCCE, todas as doses de FA II aumentaram o tempo de permanência na área clara, com elevações de 10,90%, 15,77% e 24,31%, respectivamente, em comparação ao controle. No teste de dor, nenhuma das doses de FA II interferiu na atividade analgésica da morfina em comparação ao veículo, sendo observada redução das respostas nociceptivas em 97,26%, 97,35% e 97,12%, respectivamente. Esses achados sugerem que a FA II é capaz de atenuar os sintomas físicos de abstinência a opioides sem interferir na atividade analgésica da morfina, entretanto são necessários novos estudos para elucidar os mecanismos neurobiológicos envolvidos nesse provável efeito antiadictivo.