A biossíntese de nanopartículas metálicas tem emergido como alternativa às abordagens físico-químicas tradicionais, que utilizam reagentes tóxicos e apresentam elevado custo. Nesse contexto, as nanopartículas de prata (AgNPs), obtidas por síntese verde destacam-se por aliarem sustentabilidade e eficiência biológica, e por suas propriedades antibacterianas e anticancerígenas. O uso de extratos vegetais mostra-se eficaz na redução e estabilização das nanopartículas, configurando uma estratégia segura e ecologicamente adequada, dentre eles tem-se o urucum (Bixa orellana), que apresenta potencial para atuar como agente redutor e estabilizante nesse processo. Assim, o presente estudo teve por objetivo sintetizar e caracterizar AgNPs obtidas a partir do extrato da resina das sementes de urucum, bem como avaliar seus efeitos antimicrobianos, tóxicos, citotóxicos e genotóxicos. As AgNPs foram caracterizadas por técnicas espectroscópicas e analíticas, sendo a formação confirmada pela presença da banda plasmônica com pico em 418,5 nm. A análise por FTIR evidenciou grupos funcionais associados aos processos de redução e estabilização, enquanto os estudos térmicos indicaram múltiplos eventos endotérmicos e exotérmicos. A difração de raios X confirmou a natureza amorfa do extrato e a presença de fases cristalinas da prata. A toxicidade aguda avaliada em Artemia salina demonstrou efeito dependente da concentração, com CL₅₀ de 13,12 μg/mL para as AgNPs-urucum, enquanto o extrato não apresentou toxicidade. As nanopartículas mostraram-se mais tóxicas quando comparadas às NPs sintetizadas a partir dos compostos isolados do urucum, bixina (CL₅₀ = 34,22 μg/mL) e norbixina (CL₅₀ > 107,2 μg/mL). No ensaio com Allium cepa, as AgNPs reduziram o índice mitótico apenas na concentração de 107,9 µg/mL, caracterizando efeito citotóxico, enquanto as concentrações de 53,95 µg/mL e 26,97 µg/mL não apresentaram citotoxicidade. Ademais, não foram observados efeitos genotóxicos ou mutagênicos na faixa de concentrações avaliada. O extrato não apresentou atividade citotóxica, genotóxica ou mutagênica nas concentrações avaliadas (65 µg/mL; 32,5 µg/mL; 16,5 µg/mL). No ensaio de viabilidade celular por MTT, as AgNPs demonstraram atividade citotóxica em células de melanoma murino (B16-F10), com CI₅₀ de 4,4 µg/mL, apresentando efeito semelhante ao das AgNPs-norbixina e superior ao das AgNPs-bixina. Em fibroblastos L929, foi observado CI₅₀ de 9,3 µg/mL, enquanto o extrato permaneceu sem efeito citotóxico. As AgNPs sintetizadas a partir do urucum exibiram atividade antibacteriana frente a bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, com a maioria dos valores de CIM inferiores aos observados para o nitrato de prata, destacando-se Escherichia coli ATCC 25922 (CIM = 3,38 μg/mL) e Staphylococcus aureus ATCC 29213 (CIM = 6,75 μg/mL). O extrato aquoso não apresentou atividade antibacteriana nas concentrações avaliadas. Os resultados demonstraram que as AgNPs obtidas por síntese verde apresentaram propriedades físico-químicas favoráveis às aplicações biológicas antimicrobianas e com possibilidades de testes anticâncer pelo potencial citotóxico apresentado. Ademais evidenciou-se a eficiência da resina de urucum como fonte sustentável e não tóxica para a produção de nanopartículas com atividades citotóxica, não genotóxica e antimicrobiana. Futuras pesquisas in vivo precisam ser conduzidas para identificar seu potencial antitumoral em modelos animais.