As leishmanioses constituem um grupo de doenças de grande relevância para a saúde pública, distinguindo-se pela ampla variação clínica e pela heterogeneidade epidemiológica. O agente etiológico, Leishmania spp., é um protozoário da família Trypanosomatidae e parasita intracelular obrigatório de células do sistema fagocítico mononuclear. Esse microrganismo apresenta-se sob duas formas morfológicas principais: a promastigota, flagelada e localizada no trato digestivo do vetor invertebrado, e a amastigota, desprovida de flagelo e presente no interior das células hospedeiras. A leishmaniose tegumentar americana (LTA) é uma doença tropical negligenciada de grande relevância em saúde pública, causada por protozoários do gênero Leishmania e transmitida por flebotomíneos. Endêmica em diversas regiões tropicais, especialmente no Brasil, a LTA apresenta elevada incidência, associação com condições socioeconômicas desfavoráveis e significativa subnotificação, configurando um cenário que exige novas estratégias terapêuticas mais eficazes, seguras e acessíveis. Os tratamentos atualmente disponíveis, como os antimoniais pentavalentes, embora eficazes, estão associados a limitações importantes, incluindo toxicidade, resistência parasitária, alto custo e dificuldades de adesão, sobretudo em áreas remotas. Nesse contexto, o reposicionamento de fármacos surge como uma abordagem promissora para acelerar o desenvolvimento de novas terapias, reduzindo custos e riscos. O citrato de clomifeno, um modulador seletivo do receptor de estrogênio amplamente utilizado no tratamento da infertilidade, tem demonstrado atividade antileishmania em estudos pré clínicos, atuando sobre estruturas essenciais do parasita com baixa toxicidade às células hospedeiras. No entanto, sua administração sistêmica pode estar associada a efeitos adversos, o que reforça a necessidade de estratégias que promovam ação localizada e minimizem a exposição sistêmica. Dessa forma, sistemas de liberação tópica, como os bigéis, destacam-se como alternativas inovadoras. Os bigéis são sistemas semissólidos bifásicos que combinam hidrogel e organogel, permitindo a incorporação de compostos hidrofílicos e lipofílicos, além de favorecer a permeação cutânea e a liberação controlada do fármaco. A utilização de excipientes naturais, como cera de abelha e óleo de coco, contribui para a estabilidade, biocompatibilidade e potencial terapêutico adicional das formulações, incluindo propriedades antimicrobianas e anti-inflamatórias. Assim, este trabalho propõe o desenvolvimento e a avaliação de um bigel contendo citrato de clomifeno, como sistema tópico para o tratamento da leishmaniose tegumentar, com ênfase também na atividade antibiofilme frente Candida albicans com investigação integrada in silico, in vitro