O óleo artesanal de pequi constitui uma expressão da sociobiodiversidade ao articular conservação da espécie, conhecimentos territoriais, trabalho feminino, circulação mercantil e atributos de qualidade de uma matriz lipídica de interesse cosmético. Esta tese teve como objetivo analisar a sustentabilidade, o saber-fazer feminino e a qualidade do óleo artesanal de pequi (Caryocar coriaceum) produzido em Boa Hora, Piauí, integrando rastreamento relacional da cadeia, identificação botânica, registros georreferenciados e ambientais, sistematização do processo produtivo e caracterização laboratorial, com vistas à agregação de valor no âmbito da sociobiodiversidade e à discussão do óleo como matriz lipídica de interesse cosmético. Adotou-se abordagem interdisciplinar e multimétodo. O rastreamento relacional reuniu pesquisa documental, consulta institucional e observação de 89 pontos comerciais em Teresina. A investigação territorial compreendeu entrevistas com 12 mulheres, observação integral de um processo artesanal e registros botânicos e ambientais. O delineamento laboratorial incluiu oito amostras artesanais, uma preparação obtida em laboratório por extração com hexano (5B), de mesma origem territorial da amostra artesanal 5A, sem correspondência de lote, e uma referência comercial (DB), em conjuntos analíticos distintos. Nos mercados, 29 pontos declararam vender óleo de pequi; 17 forneceram
referência territorial ou interestadual, mas apenas uma ligação produtiva foi verificada até Boa Hora, distinguindo origem declarada de proveniência verificada. A matéria-prima foi identificada como Caryocar coriaceum Wittm., com cinco exsicatas incorporadas ao acervo do Herbário Graziela Barroso/UFPI (TEPB 33648–33652). Os registros ambientais associaram a continuidade da atividade à permanência dos pequizeiros e ao acesso aos frutos, diante de conversão da cobertura natural, queimadas, cercamentos e variação percebida da frutificação. A organização do processo em quatro fases e 14 macroetapas técnico-operacionais evidenciou uma tecnologia empírica situada, orientada por critérios sensoriais e decisões sobre matéria-prima, água, calor, separação, coagem, envase e armazenamento. No processo acompanhado, 34,4 kg de frutos resultaram em 510 mL de óleo; o intervalo técnico entre o batimento inicial e a finalização foi de aproximadamente 8 h 20 min, enquanto a jornada observada, desde a preparação do recipiente, totalizou 11 h 46 min. Nas três condições examinadas quanto ao perfil de ácidos graxos e à fração insaponificável — 5A, 5B e DB — predominaram os ácidos oleico e palmítico, acompanhados por terpenoides, triterpenos e fitoesteróis com distribuição variável. As amostras artesanais apresentaram variação nos carotenoides, menor amplitude da atividade antioxidante e heterogeneidade nas contagens de bolores e leveduras. No ensaio celular, 5A, 5B e DB não exibiram padrão dose–resposta consistente de redução da viabilidade. Como devolutiva comunitária, foram elaborados um guia ilustrado de boas práticas, derivado das 14 macroetapas, e uma proposta de rótulo técnico-informativo. Os resultados indicam que a sustentabilidade e a qualidade do óleo se relacionam à articulação entre conservação da espécie, acesso ao território, visibilidade das produtoras, continuidade das informações de origem, saber-fazer, condições operacionais e conservação pós-processamento. A composição é compatível com o reconhecimento do óleo como matriz lipídica de interesse cosmético, sem demonstrar segurança, eficácia, conformidade regulatória ou aptidão para esse uso. Conclui-se que a agregação de valor requer governança da informação, conservação dos pequizeiros, qualificação participativa do processo e retorno às produtoras, sem descaracterizar a base territorial e artesanal da cadeia.