A presente dissertação investiga o Butoh como uma experiência estética, corporal e espiritual, ultrapassando sua compreensão como mera linguagem de dança. A pesquisa parte da categoria japonesa Ma (間), frequentemente traduzida como intervalo, vazio ou pausa, para demonstrar que ela constitui um princípio organizador da percepção do espaço, do tempo e do corpo na cultura japonesa. O objetivo central é analisar como essa categoria opera nas práticas do Butoh desenvolvidas no Brasil, especialmente no Núcleo Tabi, em São Paulo, e nas práticas artísticas de Marcelo Evelin, em Teresina- PI, evidenciando processos religiosos em contextos seculares. O estudo fundamenta-se em uma pesquisa realizada a partir de 2024 no acompanhamento das práticas desenvolvidas pelo Núcleo Tabi e por Marcelo Evelin, assim como, a análise documental de publicações nas redes sociais e conteúdo disponível no site dos respectivos interlocutores. O primeiro capítulo examina as concepções japonesas de espaço-tempo e suas relações com o Xintoísmo e outros aspectos da cultura japonesa, defendendo o Ma como categoria classificatória. O segundo apresenta a trajetória histórica do Butoh e as contribuições de Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, destacando temas como transformação corporal, liminaridade e espiritualidade. O terceiro analisa a prática do Butoh no contexto brasileiro, demonstrando que o Ma continua estruturando experiências corporais e processos criativos mesmo fora do Japão. Conclui-se que o Ma atua como um operador simbólico que articula arte e religião, oferecendo uma contribuição para os estudos antropológicos sobre performance, circulação de categorias culturais e modos de produção da experiência.