Este trabalho investiga as práticas e os eventos de letramento que contribuem para a preservação identitária, espacial e cultural da comunidade quilombola São Martins, situada em Paulistana-PI. O estudo assume como objeto as práticas sociais e linguísticas locais, partindo da premissa de que tais manifestações são historicamente situadas e refletem dinâmicas de resistência e identidade. O objetivo geral consiste em investigar os usos sociais da língua e as práticas sociais de letramento que remetem a aspectos da cultura, da identidade e do território no Quilombo São Martins. Ancorada nos Novos Estudos do Letramento e na sociolinguística interacional, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa de cunho etnográfico para a construção do corpus, o qual conjuga entrevistas semiestruturadas, conversas informais, observação participante registrada em diário de campo, análise documental e levantamento do estado da arte. O arcabouço teórico mobiliza as contribuições de Street (2014), Kleiman (1995), Rojo (2012) e Soares (2001) para os letramentos; Bortoni-Ricardo (2005), Gumperz (1982) e Hymes (1974) para a sociolinguística; e Hall (2003) e Haesbaert (2007) para os estudos culturais e territoriais. Os resultados revelam que as práticas e eventos de letramento na comunidade configuram-se como instrumentos de resistência, manifestados por meio de letramentos vernáculos que desafiam noções hegemônicas de escrita. Nas esferas da religiosidade e dos saberes tradicionais, esses múltiplos letramentos hibridizam-se com o catolicismo popular e a ancestralidade, operando como mediadores da memória e da cura. Conclui-se que documentos antigos, rezas manuscritas, a transmissão oral, as instâncias organizacionais (associação, grupo de mulheres, museu) e as festividades (reisado) constituem instâncias vivas de letramentos de resistência, fundamentais para a coesão social e a preservação do território negro-quilombola contra o silenciamento histórico.