Esta tese investiga de que modo a cegueira moral se formaliza na ficção de Michel Houellebecq, a partir da análise da forma romanesca em Plataforma (2001), Submissão (2015) e Serotonina (2019). O argumento central sustenta que, nessas obras, a cegueira moral não se confunde com a incapacidade de ver o sofrimento, a violência ou a degradação dos vínculos humanos. Os narradores percebem com nitidez o sofrimento, a violência e a degradação dos vínculos humanos, descrevendo, classificando e interpretando o mundo que os cerca. O que falha é a passagem entre percepção e resposta ética: aquilo que é percebido não se transforma em cuidado, responsabilidade ou ação. Para desenvolver essa leitura, a pesquisa articula os conceitos de cegueira moral e adiaforização, formulados por Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis, ao pensamento de Arthur Schopenhauer, ao pensamento de Arthur Schopenhauer, sobretudo no que diz respeito ao sofrimento e à compaixão como fundamento da resposta moral. No campo da crítica literária, o trabalho dialoga sobretudo com Carole Sweeney, Ben Jeffery, Agathe Novak-Lechevalier e Douglas Morrey, cujas interpretações ajudam a compreender a relação entre desespero, realismo depressivo, mercado do desejo, consolação paradoxal e crise da experiência contemporânea na obra houellebecquiana. A análise demonstra que a cegueira moral se formaliza por meio da secura estilística, na monotonia tonal, na neutralidade narrativa e no uso de vocabulários técnicos, econômicos, jurídicos, institucionais ou clínicos para tratar da intimidade, do corpo, do desejo, da fé, da doença e da morte. Em Plataforma (2001), essa operação se vincula ao turismo, ao mercado sexual e à transformação da alteridade em consumo. Em Submissão (2015), desloca-se para a universidade, a política, a religião e o cálculo institucional. Em Serotonina (2019), atinge sua forma mais extrema na medicalização do sofrimento, na falência da cultura como formação moral e no reconhecimento tardio da perda do amor. Sustenta-se, assim, que Houellebecq constrói formalmente uma experiência contemporânea marcada pela dissociação entre lucidez e consequência ética: seus narradores percebem os sinais do sofrimento, do amor e da perda, mas permanecem incapazes de convertê-los em responsabilidade.