Esta pesquisa nasce da inquietação diante de uma racionalidade que, ao apresentar-se como universal, produziu ausências, silenciamentos e fronteiras no interior do próprio campo do pensável. Argumenta-se que a modernidade ocidental consolidou uma ontologia da separação fundada em dicotomias como sujeito e mundo, humanidade e natureza, razão e território, convertendo determinadas formas de existência em paradigma normativo do pensamento legítimo e relegando outras à condição de exterioridade epistemológica. Situada no território de Crateús-CE, região atravessada pela presença indígena, por memórias ancestrais e por processos históricos de apagamento colonial, a investigação problematiza os mecanismos pelos quais essa racionalidade continua operando na produção de regimes de inteligibilidade que definem quem pode ser reconhecido como sujeito do conhecimento e quais mundos podem comparecer como pensáveis. Sustenta-se que a exclusão dos saberes indígenas não decorre apenas da ausência de representatividade, mas da permanência de estruturas ontológicas que organizam a experiência moderna a partir da separação e da hierarquização dos modos de existir. Metodologicamente, a pesquisa desenvolve uma investigação filosófico-hermenêutica, articulando revisão bibliográfica, análise crítica de discursos e reflexão situada sobre experiências vinculadas ao território. Como desdobramento teórico e pedagógico, propõe-se a Oca dos Saberes, concebida como exercício de deslocamento epistemológico orientado à abertura de outras possibilidades de pensamento. A pesquisa conclui que o diálogo com ontologias indígenas permite tensionar os fundamentos da racionalidade moderna e ampliar os horizontes de reconhecimento de formas plurais de habitar, interpretar e existir no mundo.