As respostas das espécies às alterações nas condições ambientais podem ser investigadas por meio dos traços funcionais, os quais, ao revelar estratégias específicas de sobrevivência e uso de recursos, permitem integrar as interações bióticas e abióticas que conduzem a estruturação das comunidades vegetais. Realizamos esta pesquisa em duas áreas de ecótono de cerrado e caatinga e, para melhor apresentação dos resultados, dividimos a dissertação em dois capítulos. No primeiro capítulo, intitulado “efeito da agricultura itinerante na diversidade funcional da vegetação arbórea e arbustiva no Cerrado nordestino”, avaliamos o efeito do cultivo itinerante e das variáveis do solo na diversidade funcional (FD) da comunidade arbórea e arbustiva em três tempos de pousio (18, 35 e < 60 anos) em áreas de Cerrado. Hipostenizamos que: Em curto tempo de pousio os descritores funcionais serão menores, com o solo atuando um fator limitante; A variação intraespecífica (ITV) dos traços funcionais será maior em tempos de pousio mais curtos, refletindo maior plasticidade fenotípica; A ITV ponderada pela abundância das espécies entre os diferentes tempos de pousio diminui com o aumento do tempo de pousio; A ITV será explicada pelas variáveis do solo. Evidenciamos que áreas há 18 anos de pousio apresentam descritores funcionais semelhantes às de áreas sem histórico de uso agrícola, indicando que a prática realizada, por não envolver mecanização e uso de agrotóxicos, favorece a rápida recuperação da FD. Para a maioria dos traços funcionais a variação interespecífica predominou, evidenciando as divergências morfológicas entre espécies como estratégia de evitar os efeitos da competição. Embora a ITV seja baixa, ela não deve ser ignorada, pois é uma importante estratégia de regulação do tamanho populacional. Assim, esses achados evidenciam rápida recuperação da FD em áreas de cerrado após a agricultura itinerante. No capítulo 2, intitulado “efeito das palmeiras na diversidade funcional da vegetação lenhosa em murundus em áreas de ecótono Cerrado-Caatinga”, investigamos como a presença de palmeiras (Copernicia prunifera (Mill.) H.E. Moore e Astrocaryum vulgare Mart.) influenciam a FD da comunidade lenhosa em murundus em áreas de ecótono Cerrado e Caatinga. Postulamos que: A variação nos descritores funcionais é explicada pela presença de palmeiras e pelo tamanho da área dos murundus; Murundus com presença de palmeiras apresentam maior relação entre riqueza funcional e riqueza de espécies; Na presença de palmeiras, a variação interespecífica é maior que a variação intraespecífica. Evidenciamos que a estrutura funcional da vegetação lenhosa nos murundus não é diretamente influenciada pela presença de palmeiras entretanto, o tamanho das áreas dos murundus afetou a riqueza funcional e apresentou relação positiva com a riqueza de espécies, especialmente nos murundus com palmeiras. A predominância da variação interespecífica pode ser explicada pelas mudanças na composição de espécies entre os murundus. Além disso, a inclusão da abundância relativa das espécies aumentou a ITV, evidenciando seu papel como um mecanismo relevante na compreensão da formação das comunidades e na regulação do tamanho populacional, uma vez que sua desconsideração pode obscurecer resultados e levar a interpretações imprecisas.