O presente estudo teve como objetivo gerar subsídios para a conservação das abelhas sem ferrão e de seus habitats na Caatinga piauiense, considerando a diversidade de espécies, seus padrões de nidificação e as percepções de meliponicultores locais. Trata-se de uma pesquisa de caráter exploratório, estruturada em duas abordagens complementares. Na primeira, de natureza ecológica, foram amostradas colônias de abelhas sem ferrão em um fragmento de Caatinga, com registro dos ninhos, identificação das espécies zoológicas e vegetais associadas, além da mensuração e análise de variáveis estruturais dos substratos. Na segunda, de caráter socioecológico, foram realizadas entrevistas com meliponicultores do semiárido piauiense, cujos discursos foram analisados por meio de análise de conteúdo, visando compreender percepções sobre a importância, ameaças e estratégias de conservação das abelhas. Foram registradas 132 colônias pertencentes a seis espécies (S. depilis (n = 86), S. tubiba (n = 33), F. doederleini (n = 5), M. asilvai (n = 5), T. recursa (n = 2) e P. flavocincta (n = 1)), com forte dominância de Scaptotrigona, indicando baixa diversidade (H’ = 0,97) e elevada dominância. Os ninhos estiveram associados a 21 espécies vegetais, ao solo ou à madeira morta, com destaque para juazeiro (S. joazeiro), o pau d’arco (H. impetiginosus) a umburana-de-cambão (C. leptophloeos) e umbuzeiro (S. tuberosa), que apresentou maior frequência de ocupação. Observou-se associação significativa entre o diâmetro das árvores e a ocorrência de ninhos para S. depilis, evidenciando preferência por substratos de maior porte, enquanto S. tubiba não apresentou relação significativa com as variáveis analisadas. No componente socioecológico, os meliponicultores apresentaram predominantemente uma relação cultural com a atividade, reconhecendo a importância ecológica das abelhas, especialmente para a manutenção da biodiversidade. Além disso, reconheceram as ameaças que esses insetos enfrentam, como o desmatamento, as queimadas e o uso de agrotóxicos. No que se refere às estratégias de conservação, estas ainda são realizadas de forma informal, pontual e não sistematizada. Os resultados indicam que a diversidade de abelhas sem ferrão na área estudada é baixa, possivelmente associada à fragmentação ambiental, enquanto os meliponicultores detêm conhecimento empírico sobre o comportamento e as ameaças a esses insetos, apesar de sua aplicação ainda limitada na conservação. Conclui-se que a conservação das abelhas sem ferrão na Caatinga piauiense está diretamente associada à manutenção da vegetação nativa, especialmente de espécies arbóreas-chave, e que a integração entre conhecimento científico e saberes locais constitui um caminho promissor para o fortalecimento de estratégias de conservação da Caatinga. Adicionalmente, evidencia-se a necessidade de ações educativas e políticas públicas que promovam a sistematização dessas práticas conservacionistas.