Em sistemas socioecológicos a dinâmica de conhecimento está ligada às práticas tradicionais e ao manejo dos recursos naturais por comunidades locais. A mandioca (Manihot esculenta Crantz) possui grande relevância para as comunidades rurais brasileiras devido à sua resiliência e valor socioeconômico. Objetivou-se descrever os conhecimentos e o uso da M. esculenta, mapeando a organização de sua cadeia produtiva e analisando a influência de preditores sociodemográficos nas atividades de cultivo, processamento e comercialização na comunidade Jacaré, zona rural de José de Freitas, Piauí. A pesquisa de campo contou com a participação de 53 informantes envolvidos nas etapas produtivas, sendo os dados obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas, observação participante e turnês guiadas para coleta e registro fotográfico do material botânico. Os resultados estruturam-se na forma de três artigos complementares: o primeiro apresenta o mapeamento da cadeia produtiva por meio de fotoetnografia e toda a organização estrutural local, evidenciando um fluxo dividido em processos, subprocessos e etapas. Foram identificados três Processos, 26 Subprocessos e 36 Etapas na cadeia produtiva da mandioca. A abordagem fotoetnográfica permitiu documentar visualmente o manejo do solo, as técnicas de cultivo, o uso de ferramentas, o processamento da raiz, os canais de comercialização Por sua vez, o segundo artigo aborda os resultados sobre as plantas associadas a cadeia produtiva da mandioca, que constituem um sistema agroecológico integrado no qual diversas espécies vegetais desempenham papéis específicos em suporte à cadeia, organizadas em quatro categorias de uso local tecnologia, construção, fertilizante e combustível. O terceiro artigo investigou as cosmologias ligadas as práticas agrícolas no cultivo da mandioca. Os resultados revelam que os agricultores integram crenças, observação dos bioindicadores e rituais sagrados ao manejo da mandioca, como o plantio guiado por fases lunares e previsões de chuva baseadas em sinais naturais. Essas práticas refletem uma relação profunda entre conhecimento tradicional, resiliência climática e identidade cultural, reforçando a necessidade de valorizar tais saberes em estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Conclui-se que a dinâmica produtiva da mandioca na comunidade Jacaré integra a divisão sociocultural do trabalho e a percepção da vulnerabilidade climática a uma forte dependência ecológica e tecnológica dos recursos florestais associados.