Esta dissertação investiga a produção e as disputas de representação desencadeadas pela gravação do videoclipe They Don’t Care About Us, de Michael Jackson, dirigido por Spike Lee e ambientado, no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, e no Largo do Pelourinho, em Salvador, no ano de 1996. O estudo parte do seguinte problema de pesquisa: Como diferentes agentes sociais, políticos, culturais e institucionais disputaram os sentidos e as imagens do Brasil que seriam capturadas e projetadas internacionalmente pelo videoclipe? Nesse sentido, a pesquisa objetiva compreender os conflitos e negociações que envolveram a produção audiovisual, analisando a atuação de autoridades públicas, imprensa, indústria cultural, artistas, produtores e sujeitos vinculados aos territórios onde ocorreram as gravações. Buscase, ainda, compreender o encontro entre Michael Jackson, Spike Lee, o Olodum e diferentes experiências negras brasileiras como manifestação de intercâmbios culturais no âmbito da diáspora africana, bem como problematizar as representações da pobreza, da violência, do racismo e das desigualdades sociais mobilizadas pelo audiovisual. Entrementes, a pesquisa fundamenta-se no diálogo entre História Social, História Cultural e História Política, mobilizando as contribuições de Roger Chartier (1990; 1991; 1992; 2004), Paul Gilroy (2001), Marcos Napolitano (2002), José D’Assunção Barros (2013), Achille Mbembe (2018), Bianca Freire Medeiros (2006; 2009) entre outros. Concomitantemente, o conceito de Atlântico Negro é empregado para compreender os fluxos culturais e as experiências diaspóricas que aproximaram artistas e sujeitos negros de diferentes contextos históricos, enquanto as noções de representação, indústria cultural, poder e necropolítica e slumming contribuem para a análise das disputas simbólicas presentes no objeto. Metodologicamente, realiza-se uma operação historiográfica baseada na articulação entre análise audiovisual e pesquisa hemerográfica, tomando o videoclipe como fonte histórica e confrontando suas imagens com jornais, revistas, entrevistas, fotografias e outros registros relacionados à passagem de Michael Jackson pelo Brasil. Destarte, a escolha do Brasil como espaço de gravação, a presença do Olodum, a participação de Spike Lee e a utilização de territórios marcados pela desigualdade social fizeram do audiovisual um espaço de encontro entre diferentes experiências históricas da negritude, de modo que tais logradouros não aparecem apenas como cenários, mas como lugares carregados de memória, conflitos, identidades e significados que foram mobilizados para a produção de uma narrativa permeada pelos interesses da indústria fonográfica e da lógica mercadológica.