A tese central considera como pressuposto que mulheres quilombolas articulam
estratégias de existência e de defesa do território quilombola Marinheiro, em Piripiri no Piauí,
tendo como agenda a organização das mulheres que mobilizam seus sistemas coletivos
expressos nas lutas pelo acesso as políticas públicas como direito a permanência no território.
Para isso, se fundamentam nas concepções da interseccionalidade de gênero, raça e classe como
campo de superação do paradigma dominante expresso pelo patriarcado, racismo estrutural e
pelo capitalismo extrativista, que apesar da hegemonia do padrão de desenvolvimento do capital
que tenta suprimir seus territórios tradicionais e suas culturas ancestrais para viabilizar um
paradigma de desenvolvimento monocultural, a afirmação da identidade quilombola asseguram
sistema epistêmicos e social de ressignificação da potência das mulheres quilombolas na
participação de uma matriz própria de conhecimento. A pesquisa tem como problema
compreender: como as mulheres quilombolas constroem estratégias de permanência na defesa
do território e na afirmação da identidade quilombola e preservação de suas práticas culturais e
pela articulação da intrseccionalidade de raça, gênero e classe e quais desafios essa realidade
impõe ao assistente social na garantia de direitos dessas comunidades? O objetivo geral é
compreender essas estratégias de resistência a partir de uma abordagem interseccional que
articula raça, gênero e classe, evidenciando seus modos de organização coletiva e suas lutas
pela garantia de direitos. Busca ainda identificar a formação histórica do Quilombo Marinheiro
como território de resistencia e afirmação de identidades das mulheres; analisar a atuação das
mulheres frente às opressões interseccionais; refletir sobre os desafios ético-políticos do
Serviço Social em territórios quilombolas; compreender as percepções das mulheres sobre essa
atuação profissional; e analisar a importância da questão étnico-racial quilombola na formação
do assistente social. A investigação possui abordagem qualitativa, de caráter exploratório,
descritivo e analítico, orientada pelo materialismo histórico-dialético, compreendendo a
realidade social em sua historicidade, contradições e processos de transformação. Adota como
estratégia metodológica a pesquisa-ação participativa, inspirada em Brandão (2014),
entendendo o conhecimento como construção coletiva, dialógica e comprometida com a
transformação social. O estudo dialoga com as contribuições de Lélia Gonzalez (2020) sobre
memória, identidade, oralidade e consciência histórica na produção de saberes das populações
negras, tensionando epistemologias que historicamente invisibilizaram suas experiências. A
interseccionalidade constitui categoria analítica transversal, permitindo compreender as
articulações entre raça, gênero e classe na produção das desigualdades e nas estratégias de
resistência. A produção das informações articulou pesquisa bibliográfica, documental e de
campo, com inspiração etnográfica, utilizando observação participante, diário de campo,
registros audiovisuais e entrevistas abertas e semiestruturadas realizadas com nove mulheres
quilombolas. A análise das narrativas fundamentou-se na Interpretação de Sentidos,
possibilitando compreender os significados atribuídos pelas participantes às suas experiências
históricas, culturais e políticas. Os resultados revelam o protagonismo das mulheres
quilombolas na defesa do território, preservação da ancestralidade, transmissão de saberes e
mobilização por direitos. Suas estratégias de (re)existência expressam práticas de cuidado,
fortalecimento da liderança feminina, reafirmam o pertencimento identitário e resistência às
desigualdades que atravessam seus corpos e territórios. A pesquisa reafirma a
interseccionalidade como instrumento analítico e ético-político do Serviço Social antirracista,
comprometido com os direitos coletivos e o reconhecimento de mulheres quilombolas, povos e
comunidades tradicionais como sujeitos políticos e produtores de saberes.