Esta dissertação analisa a questão socioeconômica do assentamento Bonfim, localizado no município de Barras, no estado do Piauí, à luz do conceito de reforma agrária, buscando compreender os fatores que explicam o processo de estagnação observado na comunidade. Parte-se do entendimento de que o Brasil apresenta uma das estruturas fundiárias mais concentradas do mundo, resultado de um processo histórico marcado pela exclusão social e pela permanência do poder nas mãos das elites agrárias. Nesse contexto, embora a reforma agrária tenha sido implementada como política pública voltada à redistribuição de terras e à promoção da justiça social, muitos assentamentos não alcançaram os objetivos esperados, como autonomia produtiva, desenvolvimento econômico e melhoria das condições de vida. Diante dessa realidade, o objetivo geral da pesquisa foi analisar os fatores estruturais, institucionais e organizacionais internos que contribuíram para o processo de estagnação socioeconômica do assentamento Bonfim, em Barras-PI, à luz do conceito de reforma agrária. Como objetivos específicos, buscou-se compreender a formação da estrutura fundiária brasileira e seus conflitos históricos, investigar os fatores responsáveis pela baixa dinâmica econômica do assentamento e examinar as condições de vida dos assentados, com ênfase na produção familiar e no acesso às políticas públicas. A pesquisa apresenta relevância em diferentes dimensões. No campo acadêmico, contribui para o fortalecimento dos estudos sobre reforma agrária e desenvolvimento rural, especialmente em contextos locais ainda pouco explorados. No aspecto social, evidencia a realidade vivenciada pelas famílias assentadas, dando visibilidade às dificuldades enfrentadas no cotidiano. Já no âmbito pessoal, o estudo está diretamente relacionado à trajetória do autor, que possui vivência no local, o que contribui para uma análise mais sensível e aprofundada da problemática. Metodologicamente, a pesquisa adotou uma abordagem quali-quantitativa, de caráter descritivo e explicativo e de natureza aplicada, fundamentada em autores como Oliveira (1999; 2006), Stédile (1997), Morissawa (2001) e Scolese (2005), que auxiliam na compreensão da formação da estrutura fundiária e da reforma agrária no Brasil. Também foram utilizados referenciais metodológicos de Prodanov e Freitas (2013) e Gil (2008), que orientaram os procedimentos da investigação científica. Foram realizados levantamentos bibliográficos e documentais, além de pesquisa de campo com aplicação de questionários aos 39 chefes de família do assentamento, entrevistas semiestruturadas, observação direta e registros fotográficos. Utilizaram-se ainda técnicas de geoprocessamento com o software QGIS, permitindo a análise espacial da área estudada. Os resultados indicam que o assentamento Bonfim enfrenta sérias limitações estruturais, como a ausência de assistência técnica, a inexistência de projetos produtivos, a desarticulação interna entre os assentados e a expressiva presença de programas de transferência de renda na composição dos rendimentos familiares. Observou-se também a desativação da área agrícola e o distanciamento das atividades rurais. Conclui-se que a reforma agrária, quando não acompanhada por políticas públicas contínuas e eficazes, tende à estagnação, demonstrando que a simples distribuição de terras não é suficiente para promover transformações sociais significativas no meio rural.