Esta pesquisa analisa as percepções docentes sobre a implementação do componente Inteligência Artificial no currículo do ensino médio em escolas públicas situadas em dois municípios do interior do Piauí. O estudo parte da necessidade de compreender como uma política educacional voltada à inovação tecnológica é traduzida no cotidiano escolar, considerando as condições concretas de trabalho, a infraestrutura disponível, a formação profissional, a equidade de acesso e o apoio institucional oferecido aos professores. O objetivo geral consiste em analisar as percepções docentes sobre a implementação do componente Inteligência Artificial no ensino médio em dois municípios do interior do Piauí. O estudo insere-se na linha de pesquisa de Políticas Públicas e busca contribuir para o aperfeiçoamento da implementação da Inteligência Artificial na educação básica, considerando a atuação dos gestores e professores, as condições institucionais e os desafios enfrentados pelas escolas. A investigação adota abordagem qualitativa, caráter exploratório, pesquisa documental e estudo de casos múltiplos, desenvolvido em duas escolas públicas. Participaram seis professores selecionados intencionalmente por sua atuação direta com o componente investigado. A produção dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, gravadas e transcritas, complementadas pela análise de documentos relacionados à implementação da proposta. O material foi organizado, codificado e interpretado por meio da análise de conteúdo de Bardin (2016), com apoio do software ATLAS.ti, para tratamento de dados qualitativos, respeitando os princípios éticos aplicáveis à pesquisa com seres humanos. Os resultados demonstram que os professores reconhecem a relevância da Inteligência Artificial para a formação dos estudantes e percebem interesse, curiosidade e participação nas atividades desenvolvidas. Também identificam possibilidades de fortalecimento da aprendizagem, da cidadania digital, do pensamento crítico, da criatividade e da reflexão ética sobre o uso das tecnologias. Entretanto, a implementação apresenta limitações relacionadas à infraestrutura insuficiente, à instabilidade da conexão com a internet, à escassez de equipamentos, à reduzida carga horária, à ausência de materiais didáticos adequados e à necessidade de formação docente contínua. As percepções revelam ainda que a distância entre a formulação da política e sua execução concreta pode comprometer os resultados esperados, especialmente em contextos interioranos marcados por desigualdades tecnológicas e institucionais. Quando desenvolvida com planejamento, mediação pedagógica e orientação crítica, a disciplina contribui para usos conscientes, responsáveis e produtivos das ferramentas digitais. Contudo, quando não acompanhada de condições adequadas, pode estimular práticas superficiais, dependência de respostas prontas e ampliação das desigualdades educacionais. A análise evidencia que o sucesso da proposta não depende apenas da presença do componente no currículo, mas da capacidade das redes de ensino de garantir suporte técnico, acompanhamento pedagógico e oportunidades de colaboração entre professores. Recomenda-se fortalecer processos formativos vinculados às necessidades reais das escolas, ampliar espaços de escuta. O Docente E estabelecer mecanismos de avaliação contínua da política. Esses elementos podem favorecer práticas contextualizadas, reduzir assimetrias entre instituições e assegurar que a inovação contribua para uma educação pública inclusiva, crítica e comprometida. Conclui-se que a inserção da Inteligência Artificial no ensino médio constitui uma iniciativa legítima, relevante e promissora, cuja consolidação exige investimentos permanentes em conectividade, equipamentos, materiais, formação profissional, continuidade curricular e acompanhamento institucional. Para que essa política se efetive como direito educacional, deve articular inovação tecnológica, equidade, responsabilidade pública, valorização docente, participação dos sujeitos escolares e planejamento sustentável de longo prazo.